domingo, setembro 10, 2017

Mal-estar na maternidade

Por Vera Iaconelli

"Bem-vindo à geração cem por cento, que acredita que pode e deve dar conta de tudo e de fazer escolhas que não impliquem perdas. Uma aluna comentou esse fenômeno sabiamente: "Escolha sua perda!". Sim, é disso que se trata.
Uma ínfima parcela da população pode se dar ao luxo de não ter que caçar seu mamute diariamente. Além disso, temos outras aspirações, que nos fazem mais do que caçadores, que nos fazem humanos.
Ainda assim, somos assombrados pela ideia de que nossos filhos serão traumatizados pela nossa ausência. Aqui funciona a lógica de que pai e mãe são oxigênio, de que qualquer outro adulto cuidando deles será fatal.
Trata-se de uma lógica capitalista do individualismo, do semelhante como ameaça e da entrada do especialista no lugar dos laços sociais.
Nossos filhos viverão em média 4 a 5 décadas mais do que nós -ou seja, os deixaremos órfãos, na melhor das hipóteses. Ausência fundamental que marca o sentido da parentalidade, pois acarreta criar sujeitos rumo à autonomia.
Portanto, devemos reconhecer que nossa participação em suas vidas só tem sentido se apontar para além de nós mesmos, para os laços sociais e o mundo.
Há, ainda, outras ausências, menos radicais do que a morte, com as quais devemos aprender a lidar. Ausentamo-nos trabalhando, amando outras pessoas, amando outras coisas e amando a nós mesmos. Para o bem da saúde mental de nossos filhos, temos outros interesses e outras fontes de prazer e realização, o que permitirá a eles tê-los também.
Ninguém merece ser tudo para um pai ou uma mãe. Por outro lado, nenhum adulto merece criar uma criança sem ajuda, sem respiro, tendo que gostar de brincar por obrigação.
Crianças devem conviver com vários adultos reais, limitados, sinceros, honestos e protetores, sejam familiares ou profissionais. E, preferencialmente, estar com outras crianças.
A tarefa parental é imensa e vitalícia. Será exercida por quem assumir essa responsabilidade radical, não cabendo aqui fazer diferença entre homens e mulheres, pais e mães. Quem tomar para si essa missão só poderá cumpri-la a partir de suas escolhas e consequentes perdas, sem fazer da parentalidade um poço de ressentimento e culpas, cuja conta quem paga são os filhos.
Então, façamos a lição de casa. O que realmente é possível para cada família específica, para além de um mundo fantasioso no qual os pais se dedicariam integralmente aos filhos como se isso fosse bom para as crianças?
Perguntemo-nos também o que é desejável para nós, pois a presença ressentida não passa desapercebida aos pequenos.
Ao deixá-los com outros, sejam familiares ou profissionais, cabe assumir essa escolha, não valendo controlar à distância avós, babás e professores, o que é enlouquecedor.
Enfim, escolha sua perda e aprenda a se ausentar. As novas gerações agradecem."

VERA IACONELLI, psicanalista, é diretora do Instituto Gerar. Escreveu o livro "Mal-estar na maternidade: do infanticidio à função materna" (Annablume, 2015)

Da hipocrisia e outras tragédias

É incrivel, você passa por uma tragédia e imediatamente reconhece nos outros as piores características dos seres humanos. Outra questão é o impacto nas redes sociais a partir de uma notícia trágica, quando você e sua família são pessoas conhecidas. Ao escrever isso, retifico: dependendo da tragédia, ainda que você seja um mero desconhecido, as pessoas se desconectam dos próprios problemas para agarrar no seu. Tem gente que se debulha em lágrimas e doem como se estivessem muito consternados e solidários. Psiquicamente a explicação é simples, estes sentem com você como se estivessem vivendo a tragédia para si e não a sua. Coitados, às vezes choram mais e você ainda nem digeriu sua dor direito, você está ali petrificado e em choque com a sua perda. Choram esses compulsivamente pensando na ideação do sofrimento.

Experimentei nesses dias as piores decepções. Gente que te chama de irmã, de melhor amiga, postando a tragédia que se abateu sobre você, como se estivesse compartilhando uma receita de bolo e como se não te conhecesse. Depois vem as condolências "meus sentimentos" acompanhados ou até posteriores à seguinte expressão: "nossa estou chocada ou chocado, mas o que aconteceu realmente?". Isso é quase dizer: por favor me conta, eu estou muito curiosa ou curioso. E ai quando a notícia cai na boca de quem não é próximo a você toma proporções inimagináveis. Chegam a rir da sua desgraça como se não fosse possível que ela acontecesse com ninguém mais, inclusive com quem ri. Fora isso, tempos depois, você descobre que pessoas, parentes e amigos, que estiveram nas celebrações da perda, enquanto te davam os pêsames comentavam com outros sobre a vida pessoal do morto e da familia dele.

Tem aqueles que não dizem nada mesmo. Seguem suas vidas hipócritas e pseudo felizes sorrindo pra você como se nada estivesse acontecendo. Estes também parecem descolados da realidade. Você numa dor que não passa nunca e a pessoa no velório ou na missa sorrindo como se naquela "festa" fosse o bobo da corte.

Eu achava que tinha muitos amigos, a partir de agora são mesmo muitos, muito poucos. Alguns somem. Eu entendo que estes amigos tem medo de tragédia como se fosse contagioso e nos dão a sensação que acreditam mesmo que a vida pode ser feita só de felicidade e que você é uma pessoa sem sorte - enganam-se. O que me consola sobre essa exposição da nossa dor, é que a expressão do nosso sofrimento e essa repercussão e espetacularização vivida por outras pessoas passou. Hoje faz 30 dias e logo, logo, será só nossa, de nós 2 ou 3 que realmente sentiremos até o nosso último suspiro.

Dizem que o luto passa por uma série de fases. Isso é verdade. Primeiro você nega, depois você se revolta contra o que é etéreo, depois você se desespera, depois você se deprime e depois você aceita a viver com essa dor. Eu estou na fase do desespero ainda, que às vezes se mistura com uma espécie de mantra do "eu não acredito".




terça-feira, maio 30, 2017

quinta-feira, maio 25, 2017

10cc - I m Not In Love - (With Subtitles in English)



Isso não quer dizer nada, não...É só uma fase boba e cafona pela qual eu estou passando.

quinta-feira, maio 18, 2017

Close to You - Carpenters with Lyrics



Só pra eu lembrar desses dias, mesmo que seja só uma pequena viagem...

quinta-feira, maio 11, 2017

Seus OLHOS



E esses seus olhos de luzes, é só olhar pra eu me apaixonar...

quarta-feira, maio 03, 2017

Divina Comédia Humana — Belchior — Todos os Sentidos (1978)



No entanto, enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum  modo de dizer não, eu canto.

segunda-feira, abril 24, 2017

terça-feira, abril 18, 2017

segunda-feira, abril 17, 2017

Paul Weller - That's Entertainment (Feat Noel Gallagher)



Tão bonitinho isso, mas a plateia ouve como se fora música clássica, sem dar um pio porque é acústico, e só vibra no final.

domingo, abril 16, 2017

Aos Corintos e a mim.

O amor é uma armadilha. Faz tempo que não amo. Demorei a entender o que é o amor. Amei quando não sabia e quando achei que era amor, não era. Pensei que fosse amada, não fui. Também não considerei que fui amada, quando na verdade era. Amar é uma armadilha. Para alguns o amor é uma coisa só, uma pessoa só, uma vida inteira. Tem gente que acha que o amor não existe. O amor é egoísta. O amor é egoísta? O amor é uma troca. O amor tem interesse. Contrariando Paulo, o amor não é o mais importante, pois há muito sobrevivo da esperança.


1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4 O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
5 Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
7 Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8 O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9 Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
10 Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

terça-feira, abril 04, 2017

Radiohead - Creep (Legendado)

Radiohead - No Surprises

A heart that's full up like a landfill
A job that slowly kills you
Bruises that won't heal
You look so tired and unhappy
Bring down the government
They don't, they don't speak for us
I'll take a quiet life
A handshake of carbon monoxide
And no alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
Silent, silent
This is my final fit
My final bellyache with
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises
No alarms and no surprises, please
Such a pretty house
And such a pretty garden
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises (let me out of here)
No alarms and no surprises, please (let me out of here)

domingo, abril 02, 2017

Somos corpos que caem

Domingo de manhã. Acordo meu corpo ainda não-dócil para um dia de preguiça e tomara de muita leitura e reflexão. Passeio pelos posts dos amigos e de páginas curtidas no meu "feed". Ao longo do desce e sobe do cursor me deparo com uma matéria em um programa de TV. A atenção está voltada para uma atriz que perdeu peso e melhorou a sua saúde de uma forma muito simples. Meu corpo não-dócil começa a ler sem pretensões e aos poucos vai se tornando dócil. Ao ler essa matéria eu naturalmente me inspiraria por uma vida real, mas não. A matéria me responde o "quem", o "onde", o "porque", e então me responde o "como". Nesse momento em que o corpo quase cai, volta o meu corpo não-dócil.
No "como" da matéria está um livro, neste livro a solução: se e somente se você clicar no link aparecem o preço e o nome de quem escreveu. Isso nem é publicidade, é uma matéria sobre uma vida real. Meu corpo não-dócil na mesma hora sorri, com certa decepção, e tento fechar a página. Não consigo, o dominante me implora para não ir embora. Como um amante cheio de desejo me provoca: não vá ainda. Lendo os comentários tenho a certeza de que muitos corpos dóceis serão consumidos pela oferta de algo que se parece uma experiência e um testemunho de vida feliz. Sorrio desencantada e agora determinada a sair dali com pressa.

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Under The Milky Way


Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, isso somos nós.
Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre
quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas.
O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento.
Milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas,
cada criador e destruidor de civilização (...) viveu aí, num grão de pó suspenso
num raio de sol. As nossas posturas, a nossa suposta auto importância,
a ilusão de termos qualquer posição de privilégio
no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida.
O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica
que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão,
não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar
para nos salvar de nós próprios.

Carl Sagan

sábado, outubro 22, 2016

Desejo e Reparação

Quando era criança  ouvia dizer que devolver um presente deixava o ingrato corcunda, e quando a pessoa nem aceita, o que acontece?

Líquidos somos

sábado, julho 30, 2016

O elefante

O poema é um espaço.
Cada palavra aqui é grande.
E esse tema ocupa muito.
Diz respeito a um mamífero gigante.

O leão parece o rei, mas quem é?
O elefante.
No Oriente é símbolo da boa sorte, sabedoria e poder.
No Ocidente representa o peso e a lentidão.
De quem não sabe o que fazer.

A memória é muito boa.
Lembra de tudo que aprende.
Chora de saudade e não morre de velho.
Seu triste destino esta traçado pela fome, ao perder os dentes.

domingo, novembro 01, 2015

Epitáfio

Acabo de escolher meu epitáfio. Na vez de orações  quero que "rezem" isso em voz alta. Primeiro em inglês, depois em português.  Quero que em inglês  seja lido por um homem um que me conheça e em português  por uma mulher.

In My Life

There are places I remember all my life
Though some have changed
Some forever, not for better
Some have gone and some remain

All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead, and some are living
In my life, I've loved them all

But of all these friends and lovers
There is no one compares with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new

Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life, I'll love you more

Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life, I'll love you more
In my life, I'll love you more
Em Minha Vida

Há lugares dos quais vou me lembrar, por toda a minha vida
Embora alguns tenham mudado
Alguns para sempre, não para melhor
Alguns já nem existem, e outros permanecem

Todos esses lugares tiveram seus momentos
Com amores e amigos dos quais ainda posso me lembrar
Alguns estão mortos, e outros ainda vivem
Em minha vida, eu amei todos eles

Mas de todos esses amigos e amores
Não há ninguém que se compare a você
E essas memórias perdem o sentido
Quando eu penso em amor como uma coisa nova

Embora eu saiba que nunca vou perder o afeto
Por pessoas e coisas que vieram antes
Eu sei que, com frequência, eu vou parar e pensar nelas
Em minha vida, eu amo mais você

Embora eu saiba que nunca vou perder o afeto
Por pessoas e coisas que vieram antes
Eu sei que, com frequência, eu vou parar e pensar nelas
Em minha vida, eu amo mais você
Em minha vida, eu amo mais você